Eu, os Trapalhões e o menino afegão

Foram alguns dias de troca de olhares, mas nossa relação se resumia a encontros nas áreas comuns. Nenhum dos dois sabiam se era permitido quebrar a barreira e passar para o próximo passo. Não me contive e, em um dos encontros, fiz um sinal de “joia” com o polegar meio disfarçado, afinal não sabia se isso poderia soar ofensivo. Ele retribuiu. Primeiro contato real.

A partir daí os olhares já eram menos desconfiados e cada vez mais curiosos. Logo que me via tratava de botar o polegar em riste e um sorriso tímido teimava em escapar pelo canto da boca.

Até que ele tomou coragem e veio falar comigo, sem nenhuma cerimônia.  Do alto dos seus no máximo 1,20m, com toda segurança que seus 6 anos lhe davam, ultrapassou toda a distância que até então sua família afegã mantinha dos outros hóspedes e funcionários do hostel. Fiquei espantado com a audácia do garotinho.

Ele estava ali do meu lado, pedindo atenção. Tentei com as mãos indicar que eu não entendia o que ele falava, mas ele me ignorava. Apelei para a tecnologia mas a frase “Não entendo o que você fala” em tradução livre para o afegão pelo Google Tradutor não pareceu fazer muito sentido pra ele.

Ele falava o que pra mim pareciam sons desconexos e eu respondia com o que eu achava que devia, que pra ele também não deviam passar de grunhidos. Mas chegou o momento que não contive a curiosidade em saber o que aquele pequeno ser queria me dizer. Apelei para o pai, que falava um inglês básico, que me traduzisse o que o garoto falava.

Um pouco sem jeito explicou que ele estava apontando o computador e dizendo: “É igual o do meu pai, meu pai também tem um computador”, não escondendo o orgulho em completar a informação dizendo que o garoto era muito inteligente e já sabia mexer no computador e no tablet. Com ajuda do pai, tivemos nosso primeiro papo. Era o aval que ele precisava. Garoto safo!

Nem 10 minutos depois que o pai o tirou de perto de mim, sem antes pedir desculpas várias vezes pela interrupção da criança, o pequeno já estava sob a mesa interagindo com aqueles olhos curiosos, esperando só uma troca para começar um novo papo.

Novos grunhidos dos dois lados até o momento em que ele puxou meu fone de ouvido, insistindo por atenção. Não resisti. Precisava me comunicar com ele de alguma forma. Algo que fizesse sentido pra ele independente do idioma. Saltimbancos! Foi a primeira coisa que me passou pela cabeça, talvez por estar trabalhando ao som de Chico Buarque, quando fui docemente interrompido pela segunda vez.

Alternei para o álbum clássico no Spotfy, mas já tinha aprendido a ler sua feição, e era claro que a mensagem não chegava só assim. Precisava de algo mais. Foi quando lembrei de “Piruetas”, um clássico do filme “Os Saltimbancos Trapalhões”. Bingo. A imagem completou a história naquela cabecinha ávida por coisas novas.

O riso a uma altura dessa não era nada tímido e já escapava sem receio. Os olhos acompanhavam cada pirueta, cada tombo. Nosso olhar de cumplicidade entregava: estávamos nos entendendo e rindo juntos. O clipe de “História de uma gata” veio em seguida e o deixou hipnotizado com a performance da gata (Lucinha Lins) e gargalhava a cada intervenção da galinha, interpretada pelo Zacarias.

Daria tudo para ler o que se passava na mente desse menino, exposto àquilo tudo em um ambiente tão diferente do que cresceu. Quando acabou, o olho dele me pedia mais. Coloquei o filme completo e o deixei lá, com aquelas cores, cenários, palavras e sons completamente novos. Fiquei de longe. Fui conversar com o pai e explicar que era um filme da minha infância.

Ficou por lá uns 20 minutos, quase sem se mexer. Atento. Quando cansou, resolveu sair. Tirou os fones, passou por mim e falou alguma coisa. Apelei novamente ao pai: “Ele disse obrigado”.

Enquanto escrevia esse texto, ele corria pela sala interagindo com todos, mas agora de outra maneira. Parece que essa interação e a reação positiva do pai lhe deram o aval para agir sem barreiras, mesmo parecendo já entender que somos de culturas muito diferentes, ele ainda não as criou.

Sua insistência em se comunicar quebrou distâncias geracionais, de cultura e idioma da maneira mais rápida e doce que eu já presenciei. Gostaria muito de encontrá-lo daqui uns 20 anos pra dizer: “Obrigado, garoto!” – se possível em afegão.

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