Hostels se mostram opção de hospedagem inclusiva para pessoas trans

Cristian Cavalcanti, de 24 anos, ‘morou’ por seis meses em um hostel no Rio de Janeiro; Maisa Ângelo, empresária de 30 anos, se hospedou pela primeira vez em um hostel com a mãe, a tia e duas sobrinhas; em seu primeiro mochilão internacional, Natasha Roxy, de 27 anos, trabalhou em hostels no Paraguai e agora planeja uma viagem pela América do Sul.

Além de terem alguma relação com esse universo de compartilhamento de espaços e culturas, uma característica também une essas pessoas: são pessoas transexuais no Brasil, o país que ao mesmo tempo que lidera o consumo de pornografia com pessoas trans, é o país que mais assassina essas pessoas no mundo.

Para celebrar – mesmo que com alguns dias de atraso – o mês da visibilidade trans (janeiro) pedimos para três pessoas trans contarem um pouco de como foi a experiência que viveram nesse universo de compartilhamento de culturas experiências e, principalmente, espaços como quartos e banheiros coletivos.

“Sobre a troca de experiências? Eu aprendi a falar espanhol, cara!”

Turismo LGBT

Cristian (de chapéu preto) e a companheira de poesia, Dayane, são os únicos brasileiros da foto. Contato com argentinos ajudou ele a aprender um novo idioma.

Até pegar confiança e se sentir a vontade, o jovem artista Cristian Cavalcante, de 24 anos, é quieto e observador. Mas logo depois revela toda a sensibilidade que o levou a ganhar a vida recitando poesia nos vagões de trens e do metrô do Rio de Janeiro. Dono de uma personalidade marcante ele chegou ao Easygoing Hostel para ficar alguns dias e não saiu por quase 6 meses. Nesse período ele acabou assumindo o bar do hostel e até alguns turnos de recepção.

“A minha dica é ouvir mais. Sentar, conversar e procurar ouvir a história daquela pessoa da maneira mais agradável possível. Quem fala muito não aprende nada, mas quem escuta, aprende muita coisa”

Mesmo ainda em processo de retificação dos documentos ele afirma que desde que chegou não teve problema em relação ao seu nome social. “Na maioria dos hostels que eu fiquei a galera já entendia rápido e nunca usaram meu nome de registro”, conta. Em relação à troca de experiências e o que ele vai levar dessa vivência ele é assertivo em apontar: “Eu aprendi a falar espanhol, cara”, isso graças ao número alto de viajantes argentinos que passaram pelo hostel durante o tempo em que ficou por lá.

Ele relata que apenas algumas pessoas, quando sabiam que ele era um homem trans, começavam a trocar os pronomes. “Não dá pra entender porque a pessoa que sempre me chamou no masculino, quando sabe que eu sou trans, começa a me tratar com pronomes femininos. Mas sempre foram a minoria e eu tirava de letra, porque aí o problema já é da pessoa e não meu”, recorda rindo.

“Nem tudo que a gente vê é o que a gente pensa”

Turismo LGBT

Maísa (primeira à esquerda) realizou o sonho da família de conhecer o Cristo Redentor

“Quando chegamos e vimos aquele monte de ‘hippies’ (referindo-se aos mochileiros), gente andando sem camisa pra lá e pra cá e a música alta ficamos com bastante receio”, revela aos risos a empresária Maísa Angelo, de 30 anos. Assim começou a primeira experiência dessa manauara em um hostel no Rio de Janeiro com a família. Assim como muitos outros brasileiros, que ainda não estão familiarizados com a cultura de hostel, ela chegou até o albergue pelo preço e sem saber exatamente o que ia encontrar.

Segundo ela, o bom atendimento e a hospitalidade foram fatores primordiais para a rápida adaptação. “Todas as pessoas que trabalhavam lá nos trataram super bem. Minha mãe se sentiu em casa, cozinhou o que ela gosta e ficamos amigas do dono do hostel. Amei de paixão”, sentencia ela que não tem dúvidas que ficará em hostel nas próximas viagens.

“No começo eu pensei que o banheiro compartilhado poderia ser um problema, mas não me senti constrangida em momento nenhum. As outras mulheres me trataram super bem e em nenhum momento eu senti um olhar diferente pra mim”.

Um ano depois da experiência ela lembra com carinho da viagem. “Hostel é muito bom porque possibilita que a gente que tem o sonho de conhecer uma cidade como o Rio de Janeiro, onde é tudo muito caro, consiga ficar em um bom lugar por um preço justo. Tem até cozinha pra gente poder fazer a própria comida e economizar mais ainda”

“Hostel me ajudou a ser menos individualista, mas ainda estou desapegando de alguns comportamentos”

Turismo LGBT

No Paraguai começou a superar a barreira de alguns comportamentos egoístas e entender o que é compartilhamento

Já de volta do seu primeiro mochilão, em que ficou um mês no Paraguai, a carioca Natasha Roxy, de 27 anos, tem certeza de que ficar em hostel mudou sua visão de mundo e sua maneira de viajar. “Apesar de ser bem comunicativa, falar com todo mundo, ainda tenho umas coisas bem individualistas, que fui obrigada a rever ficando em hostel”, diz ela enquanto se prepara para uma verdadeira aventura pela América Latina.

Assim que chegou no país vizinho ela foi parar em um hostel por indicação de pessoas conhecidas e trocou horas de trabalho pela hospedagem. “Mesmo tendo só homens como hóspedes não senti nenhuma discriminação. O único que tinha uns problemas era um dos funcionários do interior, que era bem machista e transfóbico”, conta a jovem que afirma que apenas quando ele falava em Guarani, que ela não entendia, podia sentir que ele estava se referindo a ela de uma maneira pejorativa.

“Essa primeira experiência foi na loucura, saí do país com R$ 5. Agora quero me planejar melhor, pois estarei com equipamentos. Essa possibilidade de ficar em hostels trocando algumas horas de trabalho por hospedagem vai me ajudar muito nessa viagem mais longa”.

Autodidata, depois de um curso de capacitação em audiovisual na comunidade da Maré, no Rio de Janeiro, ela mantém um canal no youtube onde vai registrar o projeto #TransNômade, em que pretende por 12 meses registrar a vida de pessoas trans por diversos países da América do Sul. “Quando voltar pro Brasil tenho vontade de abrir um hostel no Rio, com uma pegada auto-sustentável”, revela.

Durante painel sobre o turismo LGBT, as dúvidas sobre a população trans se destacaram entre os empresários.

turismo LGBT

Clóvis Casemiro fala sobre os dados internacionais do turismo LGBT durante III Fórum Nacional de Hostels

Mesmo tendo a consciência da não-discriminação como cerne do mercado de hostels, quando o assunto são hóspedes transexuais e travestis os tabus e o desconhecimento ainda rondam muitos empresários do setor. O melhor exemplo disso aconteceu  no painel Turismo LGBT na Hostelaria, realizado durante o III Fórum Nacional de Hostel, em novembro de 2017, em São Paulo. Depois das diversas falas dos palestrantes convidados, por quase uma hora, os eles foram questionados sobre diversos assuntos relacionados – quase que exclusivamente – à letra “T” da sigla.

As principais dúvidas mostram o quanto os conceitos de sexo biológico, identidade de gênero e orientação sexual se confundem na cabeça das pessoas de uma maneira geral. A maioria dos empresários do evento eram homens cis que buscavam informações sobre o que fazer – mas principalmente sobre o que não fazer – no acolhimento e hospitalidade da população trans para evitar qualquer constrangimento para essa população. As questões sobre a utilização dos banheiros compartilhados foram as primeiras a surgirem, seguidas pela dúvida em relação a quem deve ou não ficar no quarto feminino.

“A principal questão é respeitar a identidade de gênero com que a pessoa se identifica. A vantagem é que no hostel o dono sempre está muito próximo do negócio. Então, é dele a responsabilidade de deixar claro a toda a equipe ali a comunidade LGBT é bem recebida sempre” – Clóvis Casemiro, presidente da Associação Internacional de Turismo LGBT no Brasil

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